Em 1962, aos 5 de Novembro, uma terça-feira, o pai Manuel tinha ido trabalhar como todos os outros dias, para a tipografia da Rua do Noronha, em Lisboa, ali à Rua da Escola Politécnica.
Já a maravilhosa mãe Maria do Carmo exasperava com dores e sinais.
O irmão João esse devia reflectir ansiosamente sobre a mecânica dos nascimentos. Até acredito que, se pudesse, teria intervindo mais cedo ajudando à engenharia do processo.
Mas não demorou muito tempo a que tudo fosse imparável e lá terá desatado o João a correr pelas ruas e matagais fora, à procura da parteira.
Devia marcar o relógio aí umas 9 horas e pouco da manhã, e o pai Manuel já trabalharia havia mais de 1 hora.
Viviam então aqueles três, e depois 4, ainda mais 3 anos, 1 mês e 3 dias, depois desse dia, na Charneca do Lumiar, orgulhosa freguesia lisboeta, embora bem na ponta da cidade. Tão na ponta que até acredito que nem se orgulhava muito dela a cidade.
Sou por isso um lisboeta periférico, nascido em bairro a que a Lisboa média, rica, podendo, bem chutaria para pelo menos Sacavém.
Eram 10:15 quando chegou então mais um, dizem as testemunhas presentes.
Famosa foi a tirada do pai Manuel, quando chegou, à noite: que escuro é este miúdo.
Mas há explicação. O João fora dos mais belos filhos que se pode ter, a pele, as formas, o cabelo, tudo como se tratasse de criança de cinema.
Já a minha tez era escura, creio que saí logo de beicinho e o cabelo era verdadeiramente russo. Tudo afinal sinais de irreverência, prenunciadores da natureza radical e heterodoxa que mais tarde sempre me caracterizaria.
45 anos depois aquela criança não tem cabelo (russo ou outro), a pele é insípida e da adivinhada radicalidade ficaram mais destacadamente umas cenas de sexo em público, perto dos 20 anos e nas imediações da erudita Gulbenkian, matéria hoje mais de vergonha que de orgulho.
E embora me sinta muitas vezes feliz, a verdade é que às vezes me sinto muito infeliz. Parece que é da merda de signo que me calhou, como diria a minha excelente comparsa de public sex, há vinte e tal anos, a excelente Deolinda.