quarta-feira, 31 de outubro de 2007

um beijo por dez escudos

Entre os 10 e os 11 anos, o meu tamanho era o de todos os miúdos, pequeno, ainda desesperando pelo impulso vertical que me tornasse mais próximo dos meus ídolos, acima de todos do meu irmão, 8 anos adiante e um namoradeiro dos diabos. Já a Almerinda teria uns 13 ou 14, era altíssima, formato quase completo de mulher, os cabelos lisos, castanhos, longos, os olhos também castanhos, sabedores, característicos de uma mulher da Rua Maria Pia. Acontecia esta história na Escola (então) Preparatória Manuel da Maia, no bairro de Campo de Ourique, bem próximo do Casal Ventoso. Garanto-vos que não havia outra miúda sequer perto da imponência da Almerinda, como também não havia outro tipo por perto do tamanho do seu namorado "formal", o Ismael, um matulão de alguns 16 anos, que todos os dias saía da sua Escola (então) Industrial Machado de Castro e fazia não longe de 3 quilómetros a pé para ir buscar a Almerinda. Sempre acolitada pela mulher mais feia da escola, a indescritível Clara, a "minha" Almerinda fazia-se pagar por favores, o mais famoso deles um beijo lábios com lábios. O preço tabelado eram dois sorvetes, um para cada uma. Mas não era fácil o negócio e poucos se arriscavam a que o Ismael chegasse e com dois estalos acabasse com a graça da ousadia. Mas eu e o Miguel sempre tínhamos sido bons cúmplices, embora rivais. Eu fui sempre o número 2 e ele o número 3 nas classificações do ensino primário (o Nuno era o 1, atinadíssimo, o bibe sempre impecável, olhar sempre em frente para o professor Janeiro. Um pobre infeliz), numa época em que os melhores se sentavam à frente e os piores ficavam esquecidos ao fundo da sala. Vivíamos, eu e o Miguel, a uns 500 metros um do outro, eu visita de casa dele vezes sem conta, ele menos da minha, porque em minha casa nada havia que lhe interessasse, os brinquedos sempre poucos e pobres. Mas jogávamos mesmo bem um com o outro nestas coisas. E tínhamos tudo temporizado. O esquema era assim: nós e o Ismael saindo ao mesmo tempo, cada qual da sua escola, às 4 da tarde, o carro dos sorvetes estando á porta todos os dias, os 3 quilómetros do Ismael duravam-lhe no mínimo uns 15 minutos, o que nos deixava uns 5 a 7 minutos para tratar do caso. Logística preventiva adicional, quando o dinheiro era meu, ia o Miguel para a esquina da Rua Almeida e Sousa, a uns 50 metros, e gritaria se o Ismael se chegasse ao horizonte. Se os 10 escudos eram do Miguel lá ia eu. Ao Miguel, filho de engenheiro, coube sempre beijar mais vezes. Mas eu não me posso queixar. Foram os meus primeiros e tinha a pobre da Almerinda de se curvar um bom bocado. Ainda lhes tenho o sabor na memória. E, evidentemente, nunca o Ismael nos apanhou e à Clara da Maria Pia jamais lhe toquei os lábios. O Miguel, esse, beijou-a vezes sem conta também. Um desperdício. Revi há poucos anos a Clara, tão feia como então. Olhou para mim e parece-me que se lembrou que nunca me tinha pago convenientemente todos os gelados que lhe ofereci, com moedas tão arduamente resgatadas aos meus pais. Passei adiante e confirmei o acerto da minha decisão de vinte e tal anos antes. Mas nunca mais vi a Almerinda. Se a visse agora não sei se resistiria a convidá-la para irmos comer um gelado. Pagava eu, é claro.