quarta-feira, 31 de outubro de 2007
uma pequena história
Há muitos anos eu fui pobre, mesmo pobre. Passei Invernos sem “Kispos”, vestido apenas com casacos de malha feitos pela minha mãe, fizesse chuva ou fizesse frio, às vezes muito frio. Fui motivo de chacota no liceu, pela crueldade que só os miúdos conseguem ter, e alvo de enxovalhantes inquirições em público pelos professores, os mais misericordiosos e pios. Aconteceu isto depois da morte do meu pai, tinha eu uns 12 anos e era o meu irmão militar, por sinal com problemas - suspensão e até detenção em quartel - por estar envolvido politicamente. Para além da falta do “Kispo”, faltavam-me outras coisas, acima de tudo uma bicicleta. Mas eu corria que me fartava. No Liceu Pedro Nunes, escola lisboeta de ricos, ganhava corridas sobre corridas de 60 metros (o tamanho da pista do liceu) e na minha rua só o Zé Manel da “peixeira” conseguia competir comigo. Percebi mais tarde que miúdo sem bicicleta corre mais depressa. Um dia juntaram-se no jardim da Estrela uns 10 miúdos da minha zona com bicicletas, alguns amigos, outros nada amigos, para fazerem corridas em redor do maior espaço relvado, uma extraordinária pista de cimento - que ainda hoje existe. Eu não seria o único sem bicicleta, mas doía-me tanto como se fosse.Tiveram lugar as eliminatórias e apurou-se um vencedor, o Paulo Jorge. Foi o meu momento de glória. Desafiei-o para uma corrida, eu e as minhas pernas e ele e a sua fantástica bicicleta de roda 24. Creio que se riu. Quase todos se riram de mim. A pista teria uns 200 metros. Era uma só volta, partindo-se lado a lado. Ganhei. Corri que nem um louco, mas feliz e determinado, porque sabia que tinha de ganhar e assim, quem sabe, vingar toda a dor de ter sempre menos que todos os outros. Terminada a volta, viro-me para trás para celebrar e contemplar a cara daqueles meus amigos mais ricos. O Paulo Jorge não conseguiu suportar a minha vitória e atropelou-me com violência. Caímos os dois e penso que parti a cabeça. Não recordo muitas outras vitórias com aquele sabor, passados estes 30 anos. Mais do que já antes sucedia, nunca depois me deixaram conduzir as bicicletas deles e o Paulo Jorge deixou de me falar, pelos menos umas boas semanas. Mais tarde as coisas mudaram e também eu passei a ter um “Kispo”. Já a bicicleta, só aos 35 anos comprei uma.